Sporting sem democracia? Varandas caminha para reeleição sem adversários e eleições viram formalidade
No papel, o Sporting vai a votos. Na prática, Frederico Varandas avança sem oposição digna desse nome. A dois meses das eleições marcadas para 14 de março, o cenário é tão claro quanto desconcertante: não há rival à vista, não há debate real, não há confronto de ideias. Há apenas um presidente instalado, confortável, e um clube que parece ter aceitado que não existe alternativa.
Claro que, numa democracia saudável, a concorrência seria sinal de vitalidade. O contraditório fortalece instituições, obriga líderes a explicarem decisões e dá voz a diferentes sensibilidades. Mas o futebol vive de consensos quando os resultados aparecem — e Frederico Varandas beneficiou exatamente disso. Entre títulos, estabilidade financeira e controlo político do clube, o presidente do Sporting construiu um cenário raro: eleições sem disputa.
Frederico Varandas lidera os leões desde 2018, foi reeleito em 2022 e volta agora a apresentar-se como candidato em 2026. Desde então, o clube passou por momentos de glória, como o título nacional, mas também por fases de tensão e contestação. Ainda assim, nenhuma dessas crises foi suficiente para gerar uma alternativa sólida, organizada e credível dentro do universo leonino.
O prazo para entrega das listas termina a 12 de fevereiro. Falta menos de um mês. E, até agora, o silêncio é ensurdecedor. Não surgem antigos dirigentes, não surgem empresários influentes, não surgem figuras históricas do clube. Surgem apenas rumores, nomes desconhecidos, candidatos sem base social, aqueles que aparecem em todas as eleições apenas para “marcar presença”.
É o filme de sempre: aventureiros, candidatos folclóricos, figuras simpáticas mas irrelevantes, projetos sem equipa, sem plano e sem capacidade mobilizadora. A diferença é que, desta vez, nem sequer há um segundo nome minimamente reconhecido que possa servir de contraponto a Varandas. O presidente não enfrenta um rival — enfrenta o vazio.
E isso levanta uma questão incómoda: estamos perante um Sporting unido ou um Sporting resignado?
A ausência de oposição pode ser lida como sinal de aprovação total do trabalho da direção. Muitos adeptos sentem que o clube está mais estável, mais respeitado institucionalmente e menos refém de guerras internas. Para esses, Varandas representa ordem, continuidade e previsibilidade — três palavras raras no futebol português.
Mas também pode ser interpretada como sintoma de desmobilização democrática. Quando ninguém aparece para disputar o poder, não é apenas porque o líder é forte; é também porque o sistema se fechou, porque os espaços de debate encolheram ou porque o custo de enfrentar o poder se tornou demasiado alto.
No futebol, quem controla o presente controla o discurso. E Varandas controla ambos. A máquina comunicacional do Sporting é eficaz, a estrutura está alinhada e os resultados desportivos servem de escudo contra qualquer tentativa de contestação. Questionar torna-se impopular. Divergir passa a ser visto como ataque ao clube.
É neste contexto que as eleições de março caminham perigosamente para uma mera formalidade estatutária. Um ritual democrático sem verdadeira escolha. Um ato eleitoral onde o vencedor parece conhecido antes do primeiro voto ser contado.
Não se trata de acusar Frederico Varandas de falta de mérito. Pelo contrário: só alguém que fez bem o seu trabalho consegue chegar a este ponto. Mas o Sporting enquanto instituição deve perguntar-se se este silêncio é saudável a longo prazo. Clubes grandes vivem de pluralidade, debate e fiscalização interna — não apenas de consensos confortáveis.
A história do futebol português mostra que lideranças demasiado solitárias acabam, muitas vezes, por se tornar surdas. Hoje tudo corre bem. Amanhã, um ciclo desportivo negativo pode mudar radicalmente o humor das bancadas. E, quando não há cultura de oposição, a queda costuma ser mais ruidosa.
Para já, Frederico Varandas reina sozinho em Alvalade. Sem rival, sem pressão, sem debate. As eleições aproximam-se, mas a sensação é clara: o Sporting vai a votos sem escolha real. E isso, goste-se ou não do presidente, devia preocupar todos os sportinguistas que acreditam que um grande clube também se faz de democracia viva — e não apenas de vitórias no marcador.
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